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Desafios na tecnologia para o desenvolvimento

Amanda Fagerblom*

By Inter-American Foundation on Comment

Um programa global para levar educação a crianças desfavorecidas em forma de computadores portáteis foi uma importante lição aprendida sobre o uso da tecnologia para o desenvolvimento comunitário. Um Laptop Por Criança soou como uma excelente solução para colocar o acesso à rede global ao alcance dessas crianças, a fim de aumentar seu conhecimento e abrir oportunidades.

O único problema foi que os criadores do programa não previram que, em vez de os alunos usarem os computadores para melhorar suas pontuações nos testes, alguns pais iriam usá-los como fonte de luz para cozinhar à noite. Que lição podemos tirar daqui? Por exemplo, que devemos colocar uma ênfase maior na compreensão das necessidades da comunidade antes de sair entregando laptops de US$100 para famílias carentes.

A inovação tecnológica tem o potencial de conferir a projetos de desenvolvimento o poder do impacto e da replicabilidade. Ainda assim, iniciativas com componentes de tecnologia da informação e comunicação (TIC) geralmente fracassam em atingir os objetivos do programa. Em um mundo cada vez mais conectado, o fracasso na realização desses projetos significa que negócios liderados por mulheres não são criados, que peixes não são vendidos a preços de mercado, resultando em famílias famintas, e que milhões de dólares e esforços destinados ao desenvolvimento são desperdiçados. Porém, existem projetos valiosos de TIC. O principal desafio de aplicar esses projetos para o desenvolvimento depende de certas ações que a comunidade de desenvolvimento internacional deve tomar para garantir seu sucesso.

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Lila Almendra, Community Manager for the Agroecology Network in RedColaborar listening to users at an all-grantee partner event in Brazil!

TICs para o desenvolvimento aplicam infraestrutura e serviços para apoiar o desenvolvimento social, econômico e político de comunidades pobres e marginalizadas. Isso inclui tudo, desde comunicações por voz, tecnologias de SMS e smartphones até o investimento em banda larga e o desenvolvimento de políticas regulatórias. As organizações têm priorizado as TICs em sua programação para projetos, como aplicativos para smartphones para monitorar violações de direitos humanos, mensagens de SMS para medir a cobertura da imunização e enviar lembretes sobre saúde. O Banco Mundial priorizou o setor de TIC, especificamente na área de acesso em sua estratégia de 2012 a 2015, tendo como alvo cerca de US 875 milhões em investimentos destinados a 36 projetos.

Este aumento no investimento em TIC, entre diversas organizações de ajuda, iniciou o debate sobre desafios como o projeto de um laptop por criança. Aprendemos com projetos pioneiros e analisamos cuidadosamente como realizar adaptações. Outro exemplo, a experiência dos Pescadores do Sul da Índia, buscou implementar um projeto com telefones móveis conectando pescadores a preços de mercado, a fim de aumentar seu lucro. Infelizmente, foi difícil avaliar se os telefones tiveram um impacto direto sobre a subsistências das comunidades pesqueiras. Por exemplo, muitos dos pescadores preferiram as transmissões de rádio para comunicação porque a cobertura dos telefones celulares não tinha o alcance necessário.

Essas ferramentas inovadoras que, de todas as maneiras, poderiam ser respostas sólidas aos desafios do desenvolvimento, não foram amplamente adotadas porque os implementadores fracassaram em analisar o ambiente social e cultural e as necessidades do usuário na comunidades, diretamente com o usuário. Por sorte, parece que o desenvolvimento com o usuário, ou liderado pelo usuário (UX, no jargão tecnológico) é agora um componente fundamental para o desenvolvimento comunitário por TIC.

Em meu trabalho na Fundação Interamericana (IAF) para desenvolver a plataforma baseada na web RedColaborar, para a aprendizagem e a colaboração entre nossos parceiros financiados, segui a abordagem UX. Eu busco a comunidade em desenvolvimento quando me deparo com desafios tecnológicos, e considero esses contatos como fornecedores de informações valiosas para meu trabalho. Participei recentemente de uma pequena mesa-redonda realizada pelo TechSalon para discutir como trazer interessados para o processo de elaboração de TICs. Em junho, mais de 300 especialistas em agricultura e tecnologia se reuniram para compartilhar as mais inovadoras intervenções de TIC em projetos com pequenos agricultores na Conferência ICT forAG. Eles mostraram trabalhos excitantes, como o dinheiro móvel, drones e detecção espectral, a assimetria de gêneros na tecnologia e a cadeia de blocos — um sistema de registros incorruptível para transações econômicas. 

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Henrry Valencia, Community Manager for the Peace initiative network in RedColaborar, gets user feedback at an event in Colombia.

Embora identifiquemos corretamente a metodologia conduzida pelo usuário, os projetos de TIC parecem continuar fracassando. Por que a comunidade do desenvolvimento não consegue fazer com que o UX funcione? As organizações de doadores não foram elaboradas dessa maneira, e muitas não têm experiência em desenvolvimento baseado em comunidades. A imensa estrutura, os processos burocráticos e o tempo exigido para a implementação são obstáculos para projetos ágeis e bem sucedidos de TIC. Existem ações que poderíamos tomar, tais como a reforma das aquisições, ferramentas simplificadas de protocolo de segurança e privacidade como LTO da GSA e a realização de pesquisas nos locais-alvo antes dos projetos. O fator mais importante, no entanto, consiste em um relacionamento e confiança bem estabelecidos entre a comunidade e o doador.

 

A IAF está bem posicionada para conduzir esses projetos em razão da essência de nosso trabalho ser liderada pelos usuários, responsiva e ágil. A abordagem da IAF em mais de 40 anos resultou em fortes laços com milhares de grupos resilientes na América Latina e no Caribe. Eles são os inovadores, os empreendedores, os especialistas em suas abordagens aos desafios do desenvolvimento. O acesso a essa rede tem sido um recurso importante para nosso projeto. Testamos nosso protótipo com grupos financiados pela IAF relacionados à agroecologia, à juventude e ao processo de paz na Colômbia, culminando com mais de 600 colaboradores em nosso local de teste. Eles fornecem um feedback honesto e são abertos para compartilhar seus desafios diários. Selecionamos gestores comunitários dessas organizações para entrevistar usuários, para avaliar a usabilidade do testes e ajudar a desenvolver uma plataforma com uma melhor finalização. A gestora comunitária Lila Almendra, do Brasil, participou de um evento de agroecologia em março, a fim de testar o protótipo e facilitar uma grande discussão em grupo sobre o uso da plataforma como um recurso para o compartilhamento de conhecimento. A estratégia da gestora comunitária ajudou nossa equipe a se concentrar ainda mais nas necessidades dos usuários.

 

A TIC para o desenvolvimento não tem um tamanho único, e isso é especialmente desafiador para uma organização como a IAF. Nosso grupo de usuários é diverso em sua acessibilidade à Internet, preferência por equipamentos, objetivos de desenvolvimento, idiomas, situação regulatória, necessidades de privacidade e níveis de alfabetização digital. Ele é formado por alguns dos usuários mais não tradicionais e difíceis de alcançar das TICs na região. O poder da rede da IAF e da confiança entre doadores e financiados tem sido o fator decisivo no sucesso da plataforma mas, para obter ajuda com outros desafios, procuro a orientação bem informada de especialistas em ONGs, no meio acadêmico, no governo dos E.U.A., em empresas e com especialistas diversos.

 

A comunidade de desenvolvimento deve ter clareza quanto à abordagem UX em projetos de TIC. Riscar os itens na lista de verificação dos princípios de desenvolvimento digital não vai adiantar, a menos que façamos isso com os beneficiários do projeto. As grandes instituições com conhecimento técnico, mas que não possuem laços fortes com os usuários finais, devem fazer parcerias com quem se beneficia e pode se beneficiar de seu conhecimento técnico. Devemos investigar a fundação conjunta de estruturas que proporcionem uma resposta mais ágil. Se formos abertos quanto a nossas fraquezas e se reunirmos nossas forças, teremos mais resultados de sucesso nos projetos de TIC.

 

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Henry Valenda, Gestor Comunitário da rede da Iniciativa de Paz da RedColaborar, obtém o feedback de usuários em um evento de um parceiro da IAF sobre resiliência na Colômbia.

 

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